quinta-feira, 21 de março de 2013

Chuva vindo pelos telhados




Eu amava você quando ouvíamos o som da chuva se aproximando.
O som dela batendo nos telhados desde muito longe até onde estávamos.
Eu ouvia você quando amávamos o som da chuva passando pelos telhados vindo e aumentando até onde estávamos.
O barulho da chuva nos telhados se aproximando e aumentando.
Eu amava ouvir esse som do seu lado.
Ou porque a amava e estava com você, então eu ficava maravilhado.
Aquela varanda e aquele banco não existem mais.
Não existe mais eu e você.
Até esta lembrança – eu não sei...

                                                                   Diego Domingos

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

TESTAMENTO

Foto: Alexandre Baptista



Deixo pro meu filho meus olhos.
Deixo pra minha mãe minhas pernas.
Deixo pra minha mulher meu coração.

Deixo pro meu cachorro meu cheiro.
Deixo pro meu pai meus ossos.
Deixo pros meus credores meus órgãos.

Deixo de amar pros meus amigos.
Deixo de sentir os meus inimigos.
Deixo a vida para voltar pra morte.

Deixo de pensar que tenho que ir ou voltar.
Deixo de me arriscar.
Deixo de querer e de ser querido.

Deixo de ser esquecido e esqueço.
Deixo as chaves no bolso.
Deixo as portas abertas.

Deixo os vazios vazios para sempre.
Deixo as palavras, as frases, os silêncios.
Deixo o poema para entrar na Poesia.

Deixo para a minha terra natal meus papéis.
Deixo para a cidade que me acolheu minhas emendas.
Deixo para Deus minhas impaciências.

Deixo de andar com o mal e me perco.
Deixo de cantar solitário.
Deixo de acreditar no meu (meio) (do) caminho.

Deixo para ler do outro lado.
Deixo uma história mal-acabada.
Deixo a estrada para entrar na mata.

Deixo o olhar para trás.
Deixo de olhar para trás.
Deixo-me ficar onde estive, sem ficar em nenhum lugar.

Deixo a boca abrir, deixo as palavras saírem.
Deixo as pernas passarem, deixo os pés firmarem.
Deixo os braços dançarem, deixo a cabeça bulir.

Deixo as mãos pegarem, deixo que matem.
Deixo que acariciem antes a presa.
Deixo que os dedos escapem.

Deixo de seguir suas regras.
Deixo de ir na sua direção.
Deixo de acompanhar suas indicações.

Deixo minha alma envilecida.
Deixo meu espírito carnívoro.
Deixo meu corpo lenhado.

Deixo os significados todos.
Deixo os cômodos, deixo a casa, deixo as esquinas.
Deixo o bairro, deixo a cidade, deixo o país.

Deixo coisas não-lidas e lidas guardadas.
Deixo remorsos esquecidos e amores mortos.
Deixo pecados inacabados.

Deixo misérias existenciais de herança.
Deixo evitadas na cama.
Deixo compromissos descompromissados.

Deixo de ver o pôr-do-sol.
Deixo de sair e de entrar.
Deixo de ser filmado sem um sorriso.

Deixo para aquela a quem nunca me declarei...
Deixo um “eu te amo” no bolso para meu avô.
Deixo-me cair na cova.

Deixo que me barbeiem.
Deixo que me troquem e calcem.
Deixo que me pintem.

Deixo-me trancar no caixão.
Deixo-me queimar no forno.
Deixo-me colocar na urna.

Deixo-me espalhar no prado.
Deixo-me ir nas corredeiras.
Deixo-me misturar ao sal no mar.

Deixo instruções pra me matarem.
Deixo de acreditar na morte.
Deixo-me pegar.

Deixo para chorar no final.
Deixo pra lá.
Deixo parar aqui.

henrihq2013


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O escrito e o pensado

Jonathan Wolstenholme


Eu escrevo pensando.
Não. Eu penso escrevendo.
Eu escrevo enquanto penso.
Não. Eu penso enquanto escrevo.
Eu escrevo e penso.
Não. Eu penso e escrevo.
Eu escrevo, mas penso.
Não. Penso, todavia escrevo.
Escrevo porque penso.
Não. Penso porque escrevo.
Embora escreva, eu penso.
Não. Embora pense, eu escrevo.
Nem sempre penso no que vou escrever.
Não. Nem sempre escrevo o que penso.
Se penso é porque escrevo.
Não. Se escrevo é porque penso.
Eu penso pra escrever.
Não. Eu escrevo pra pensar.

Penso em escrever o que tinha pensado pensar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O poder de sonhar

Quisera estar contigo; não posso.
A vida me chama para os seus negócios;
Somos sócios.
Quisera estar contigo, ter um tempo só nosso;
Não posso.
Quisera deitar contigo e sonhar com nosso filho,
Seu sorriso e seus pensamentos;

Não posso sonhar; não posso.

Diego Domingos

terça-feira, 22 de março de 2011

Ontem e hoje, sempre

Foto: Iramaya Rocha (Internet)
Eu acho que a gente tem que tentar melhorar não o mundo, tem que melhorar o homem. Antunes Filho

Não era minha primeira intenção fazer deste espaço que ocupo uma trincheira. Mas após debruçar-me sobre os jornais da cidade e do mundo, após ouvir as rádios e a tevê, os edis e o rumor das ruas - todos eles num ajuntamento em torno da violência, das mazelas sociais e problemas estruturais do país - decidi, até em solidariedade a você que me lê, tratar de temas mais amenos aqui. Não que o problema não seja nosso, meu e seu, cidadãos de bem, mas eu só o que faria seria chateá-lo pela repetição. Aqui mesmo na Internet pessoas mais gabaritadas apontam mais causas dos problemas e outras possíveis soluções.
Eu o que quero é contar-te da alegria dos passarinhos da minha rua depois do fim da grande seca do começo do ano, de como eles, no dia da primeira chuva, deixaram de voar para andar no asfalto molhado aos pulinhos, abrindo as asas e bicando a enxurrada. E indagar-te se já não teve a sensação de estar perdendo alguma coisa ou alguém, para sempre, e nada que você faça poderá mudar isso. Perdendo lembranças que guardou por muito tempo, como um tesouro, e que deixou pra trás entre uma mudança e outra. Perdendo a capacidade de conservar uma amizade; de, despertando um amor, conseguir alimentá-lo; de ser natural com as pessoas. Acho que você e eu sabemos do que estou falando. Estamos perdendo nossa alma para as relações comerciais, vendendo-a junto com as nossas águas e as nossas árvores, vendendo nossa dignidade e nosso futuro, nossa capacidade de amar e ser amado. Deixando de pensar no todo excluímo-nos também e perecemos como moscas. Pronto. Acabei chateando-te e a mim também.

A MARIA

Se eu a conhecesse a desejaria
E se a desejasse, sofreria.
Se sofresse a amaria
E se a amasse jamais a teria.
Talvez ela me espere
Ou espere ainda que algo aconteça.
Se ela me amasse, me acalmaria.
Se eu a amasse acalmaria o mundo.

Por que amar o próximo

Por que amar o que conheço
Se o desconhecido me fascina?
Por que amar um poeta do passado
- Por maior que tenha sido -
Se posso guardar este amor
para um maior que está vindo?
Por que me preocupar com este planeta
- Tão degradado pelas nossas próprias mãos -
Se há outros ao alcance da nossa destruição?
Por que amar o próximo
Se posso amar alguém de outra galáxia
Em outras eras, de outras formas?

Diego Domingos, 6/2/2001