quarta-feira, 7 de abril de 2010

O ÚLTIMO DA FILA



Amar o que já foi amado, uma mulher, um quadro
Visitar um moribundo escoltado
Voltar para uma altitude segura
Enganar todo um leprosário
Ir caminhando com um pé na calçada e outro na rua, sobre o meio-fio
Administrar um furúnculo
Pesquisar no armário um termo em desuso
Denunciar os sonhos de outrem
Fazer hora para marcar o gol ou gozar
Tomar leite no gargalo da garrafa
Comprar carrinhos de madeira de Jesus, recusar os pássaros de barro
- o último que me vendeu, voou
Morrer no auge do sucesso ou simplesmente pendurar as chuteiras
parar de escrever, ir para o Lar dos Artistas
passar o cargo, sumir na curva da estrada do universo
envolto em poeira cósmica
conhecer os Arcos do Inferno
reencontrar os meus velhos
acompanhar o meu filho da arquibancada superior
escapar ardilosamente do fisco
finalmente abraçar todas as causas
entrar para a Escola de Anjos
jogar no time dos santos
ver o rosto sem contornos de Deus
ver a luz no fim de um túnel e caminhar tranqüilo para lá
nascer de novo em outro mundo
Parar para viver em paz ou continuar lutando
Sobreviver escrevendo obituários num país sem esta tradição
Não considerar o último da fila
Até amanhã fazer um filme ou reescrever todos os livros sagrados
Olvidar o ouvido - onde eu ouvi isso?
Atravessar paredes através de portas
Atravessar poetas com murros
Esmigalhar poemas na sopa
Fazer gols de letra, dar chapeuzinhos
chutar a bola no travessão, ultrapassar a linha, fazer uma leitura do jogo
Banir os dois pontos de todas as línguas
Sobrevoar o coma, sem pouso - onde eu escrevi isso?
Ligar para minha mãe em Massachusetts
Escrever ao Nietzsche pedindo conselhos acerca da minha poesia
Telefonar ao Mário de Andrade que saudade de ouvir a sua voz, mestre
Fazer uma foto pra revista com Cecília Meireles de Santa Maria comigo nos braços de corpo morto de Jesus
Publicar este poema na Internet
Mandar as provas pro meu editor
Reunião de autores na terça
Pedir conselhos a minha esposa acerca do que seria a verdade, ontologicamente
Passar na venda do Nem pra ver sua filha finada no balcão a sorrir pra mim quando tinha sete anos
Pegar o bonde pro aeroporto
Traçar uma linha sob os meus passos nem reta nem contínua
Passar pela cena do crime antes do acontecido
O papa não beija mais o solo das terras que visita
Agora ele beija o rosto das passistas
Saddam Hussein enforcou-se num buraco antes de ser traído e capturado
Eu almejo o sol mas me contento com o brilho dos teus olhos
Amanhã eu fui e vou ganhar ontem
Em nove meses eu me organizo e me lanço
Nesta secretaria onde está a cultura?
Por que você não se despe, deita na cadeira e abre a boca?
Só há um lugar pra se ir; pra dentro - esta eu lembro onde ouvi, em Kids
Se não acontecer alguma coisa no próximo segundo eu morro de ansiedade
Eu venho de uma família numerosa de dois irmãos e um pai
Naquele tempo as bombas não explodiam
e em seus cartões postais apareciam os campos minados
Se eu tivesse escolha eu escreveria música
Na primavera, na primeira vez
Conhecendo aos poucos a nudez de uma odalisca
Sem mais palavras por quilômetros pego-te aí sentado
atropelado com estas rodas de ouro nesta lataria enferrujada
levanta-te, anda, vai ser guache na vida!
isto sai com água
não guarde mágoa porque isto não compra nada
não se distraia mais com meu livro nas mãos
todo mundo tem a sua hora - no seu relógio, que horas são?
estes papéis espalhados no asfalto, é sangue?

Diego Domingos acha que poeta bom é poeta morto

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