sábado, 24 de julho de 2010

Apresentando Amilcar de Castro, poeta


Um poema das minhas leituras de antanho; dois poemas de Amilcar de Castro, escultor e poeta, retirados do Suplemento Literário de dezembro de 2002 (que li agora, sempre atualizado com o que tem valor; leio após uns anos, mas não deixo de ler):

A Consciência do fazer

Eu sou porque ela é.
Ela é porque eu sou.
Somos de graça.
A superfície está em branco.
Eu também.
Se com um gesto a toco,
eu sou tocado.

A grama desenha o verde

A grama desenha o verde
A árvore desenha o céu
O vento desenha a nuvem
A nuvem desenha o azul
A água desenha o rio
E o homem desenha o tempo
na exatidão do sonho.

Amilcar de Castro

sábado, 3 de julho de 2010

Um quê de síndrome do pânico ou agorafobia



Sem ânimo pra sair de casa. Correndo de compromisso. Com medo de encontrar pessoas. Querendo que o mundo entre em guerra ou sofra uma hecatombe pra que minha casa se transforme num bunker. Ficar pensando que o débito automático foi inventado baseado em mim. Fazendo auto-análise, sendo autodidata, me auto-medicando, lendo livros de auto-ajuda, jogando paciência com dominó, usando todos os teles - pedindo de carne, remédio até sexo pelo telefone, esquecido completamente da relação patrão-empregado, sem conseguir usar mais um relógio no braço, sem mulher, filhos, pai ou mãe, sem animais de estimação ou amigos, sem salário, sem poder de consumidor mas com contas a acertar com a vida, comparar uma improvável ida ao museu ou ao teatro com ir ao médico, ao dentista, ao oftalmologista, com visitar os pais ou responder um e-mail, ou atender o telefone, retornar uma ligação, conversar com os vizinhos, lembrar de aniversários, sem coragem de receber visita ou visitar alguém, torcendo pra que na caixa de entrada do e-mail só tenha spam, se esconder do carteiro, sentir uma alfinetada no coração se o telefone toca, ficar torcendo pro INSS me matar, vontade de viver da mão pra boca, comendo o que plantar, vestindo o que produzir, falando sozinho e me respondendo, evitando espelhos, reescrevendo um testamento mixuruca que a cada dia fica com um item a menos (Deixo minha coleção do Pasquim pro meu filho, o que conheço, deixo minha mulher pro vizinho, com o qual já troquei duas palavras um domingo, deixo minha tristeza pra ser cremada e espalhada por este velho mundo sem porteira, deixo meu livro para os tristes como eu e os direitos autorais para os bem-sucedidos como os outros, deixo minha história para ser inventada), ouvindo somente músicas instrumentais e preferindo os solos, fazendo cursos à distância, fazendo denúncias anônimas, ocultando a minha ID, me masturbando, comprando pela Internet, conversando no MSN, com a webcam, visitando a página dos amigos no Orkut, pensando pelo Twitter e seguindo os famosos, fazendo auto-retratos com o celular, escrevendo poemas com as palavras eu e meu, vendo minha vida passar sem coragem de dar sinal, de sentar no banco do motorista, de me atirar na frente, de olhar, pensando que Sair com os amigos parece o nome de um livro ou de um filme antigo.