quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

TESTAMENTO

Foto: Alexandre Baptista



Deixo pro meu filho meus olhos.
Deixo pra minha mãe minhas pernas.
Deixo pra minha mulher meu coração.

Deixo pro meu cachorro meu cheiro.
Deixo pro meu pai meus ossos.
Deixo pros meus credores meus órgãos.

Deixo de amar pros meus amigos.
Deixo de sentir os meus inimigos.
Deixo a vida para voltar pra morte.

Deixo de pensar que tenho que ir ou voltar.
Deixo de me arriscar.
Deixo de querer e de ser querido.

Deixo de ser esquecido e esqueço.
Deixo as chaves no bolso.
Deixo as portas abertas.

Deixo os vazios vazios para sempre.
Deixo as palavras, as frases, os silêncios.
Deixo o poema para entrar na Poesia.

Deixo para a minha terra natal meus papéis.
Deixo para a cidade que me acolheu minhas emendas.
Deixo para Deus minhas impaciências.

Deixo de andar com o mal e me perco.
Deixo de cantar solitário.
Deixo de acreditar no meu (meio) (do) caminho.

Deixo para ler do outro lado.
Deixo uma história mal-acabada.
Deixo a estrada para entrar na mata.

Deixo o olhar para trás.
Deixo de olhar para trás.
Deixo-me ficar onde estive, sem ficar em nenhum lugar.

Deixo a boca abrir, deixo as palavras saírem.
Deixo as pernas passarem, deixo os pés firmarem.
Deixo os braços dançarem, deixo a cabeça bulir.

Deixo as mãos pegarem, deixo que matem.
Deixo que acariciem antes a presa.
Deixo que os dedos escapem.

Deixo de seguir suas regras.
Deixo de ir na sua direção.
Deixo de acompanhar suas indicações.

Deixo minha alma envilecida.
Deixo meu espírito carnívoro.
Deixo meu corpo lenhado.

Deixo os significados todos.
Deixo os cômodos, deixo a casa, deixo as esquinas.
Deixo o bairro, deixo a cidade, deixo o país.

Deixo coisas não-lidas e lidas guardadas.
Deixo remorsos esquecidos e amores mortos.
Deixo pecados inacabados.

Deixo misérias existenciais de herança.
Deixo evitadas na cama.
Deixo compromissos descompromissados.

Deixo de ver o pôr-do-sol.
Deixo de sair e de entrar.
Deixo de ser filmado sem um sorriso.

Deixo para aquela a quem nunca me declarei...
Deixo um “eu te amo” no bolso para meu avô.
Deixo-me cair na cova.

Deixo que me barbeiem.
Deixo que me troquem e calcem.
Deixo que me pintem.

Deixo-me trancar no caixão.
Deixo-me queimar no forno.
Deixo-me colocar na urna.

Deixo-me espalhar no prado.
Deixo-me ir nas corredeiras.
Deixo-me misturar ao sal no mar.

Deixo instruções pra me matarem.
Deixo de acreditar na morte.
Deixo-me pegar.

Deixo para chorar no final.
Deixo pra lá.
Deixo parar aqui.

henrihq2013