sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Minha vida de escritor

Bom: pra começar eu não tenho vida de escritor. Vivo numa casa abandonada por mim, e antes por mulher e filhos. Quanto a minha vida de poeta nunca passou de anônima. Escrevo muito e nem eu mesmo me leio. E ultimamente dei pra achar bom demais tudo que escrevo - um risco. Já me considerei um bom leitor, hoje me considero preguiçoso. Culpa do século que, antes do livro impresso, me dá as opções de passar os olhos pela Internet, ver um filme, ouvir uma música no mp3, ver uma partida de futebol na tevê, uma mesa-redonda, ou uma série cheia de recursos especiais, ou um bom documentário, uma boa entrevista, ou ainda ler um e-book ou atualizar uma rede social qualquer, ou ainda a melhor de todas - ouvir rádio. Então abandono o pobre Quixote no meio de uma aventura, largo no fundo do Inferno um inconsolável Dante, aceno para Shakespeare com o lenço de Desdêmona, irrito-me com um Machado Casmurro no metrô e deixo-o falando sozinho. Não é para tanto? E se hollywoodianamente Riobaldo se casasse com Diadorim no final do Grande Sertão? Bom, como Riobaldo, também tenho meus pensamentos, caros a mim, que aos outros não dizem bulhufas. Minha vida (pensada) de escritor. Penso no Machado poeta e me comparo a ele. Gostaria que as minhas Americanas também fossem um salto para algo maior. Escrever prosa. O Rosa também optou por uma prosa poética ou uma poesia em prosa. Mas quem sou eu? Um poeta anônimo, um pai sem causa, um filho perdido e amante quanto-mais. E ainda por cima um poeta obcecado por outros poetas, pelo Último Poema, pelo Lutador, pelo Romanceiro, pelo Barco Bêbedo. Sou o autor  anônimo mais famoso. Embora tarde sofra. Obcecado por idéias, por versos, pela vida romanesca dos poetas e pela idílica vida dos escritores. Já me imaginei um Fernando Sabino morando numa Ipanema de um Rio de Janeiro. Já me imaginei andando pelas ruas deste outro Rio de Janeiro do século machadiano. Eu não me pertenço. Não pertenço a este tempo. Talvez daqui algum tempo, digamos cem anos a frente, eu comece a pertencer à cidade, às ruas, aos bares, aos transeuntes, a um esquecimento de mim mesmo que hoje apenas ensaio. E nos olhos do meu filho talvez eu viva. Nas páginas do meu livro. Em cima das letras garrafais do meu nome. Finalmente autor. Autor destes pensamentos que tive, e que alguém tem, autor destas linhas que escrevo e leio, ao mesmo tempo que penso. Autor de mim mesmo.

domingo, 14 de novembro de 2010

SÓLIDA SOLIDÃO, SÓ LIDA


O meu filho não está dormindo.
Não está no quarto contíguo.
Jamais usará esta palavra
E nenhuma babá-eletrônica o olhou.

O meu pai não está comigo.
Jamais o pus na cama
Jamais ele me viu assim.
Deve ser um espectro.

Minha mulher não está dormindo.
Não conversa comigo.
Não está ligada na tevê.
Talvez andasse morta.

Eu mesmo não sei dizer.
Eu vejo pelos olhos de um velho.
Meu passado é mais presente
Que o meu futuro.

DIEGO DOMINGOS

A poesia me vem nas horas mais erradas (apud LFV)

Pesquisando para um trabalho da Faculdade sobre O Cântico dos Cânticos, a poesia me assalta, literariamente. Cedo, não sem algum protesto. Você já não se sentiu assim? Você tem um compromisso qualquer, um trabalho, uma prova, cinema, futebol, banco, qualquer coisa, e na hora de sair algo te chama para outra coisa - no meu caso, a poesia me prende à tela (onde o papel?), e ela é assim, não tem hora pra chegar nem pra ir embora, como uma visita de que gostamos e não conseguimos falar-lhe que temos que sair, temos prova hoje, ou o banco vai fechar, preciso ir, você se importa... E a poesia se importa. Ela diz "não sei quando posso voltar; não sai, não; vamos ficar; ou vamos sair; a vida é curta; aproveitemo-la; qual compromisso! compromisso temos nós dois, seu manganão!" E deste "diálogo" entre meu eu+ comigo foi que nasceu este poema aqui, que intitulei (e foi outro dia mesmo que aprendi que não é "entitular"):




Um cântico, de muitos

O amor é isso.
O amor é isso?
O amor? É isso!
Ô, amor... É isso!
O amor é isso, sim!
Isso, sim, é amor!
Amor assim.
Amor maior.
A maior.
O maior.
Ao maior.
À maior.
Melhor:
Mel e amor.
Seu amor.
O céu, amor!
Aroma.
Amora.
Amore.
A moura.
Amada.
Da ama.
Do amo.
Dosamos.
Amós.
Amar me perdeu.
O mar me achou.
O mar fechou.
Encolheu.
A flor abrochou.
Engoliu-meu amor.
A rua cerrou-me.
Orvalhou-me.
Desenganou-me.
Amar se paga.
Mete-se na sombra.
!Há dúvida?
A dúvida é da vida.
A vida é da dor.
A dor é do homem.
E o homem é do amor.
Sigo aquele que amo.
Embora nunca nos encontramos.
Ela para mim é que se volta.
Seus olhos são dos infernos
Num corpo paradisíaco.
Seu coração usa trancas.
Seus peitos são crianças.
Suas mãos mantêm cativas
Todas as reuniões de homens.
Seu pescoço é uma luva
Para as minhas mãos.
Sua cintura é a outra.
Seu umbigo é a taça
Do meu champanhe.
Toda ela é para se desejar.
Todo ele é para se desejar.
Ela sobe o monte.
Ele desce o vale.
Só Deus é testemunha
Deste verdadeiro amor.



DIEGO DOMINGOS