quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Metalugar

Mario Quintana que dizia: “Não ponhas data nos seus poemas. Eles são de qualquer tempo”.

onde eu ponho um ponto não ponho uma vírgula;
onde eu exclamo não interrogo!?
onde eu fico de través não atravesso –
onde eu pontuo não finalizo.
onde eu falho não sinalizo.
onde eu tropeço ponho vírgulas,
onde eu hesito, também,
mas quando tenho êxito, não.
quando eu vejo já está escrito,
já estou pronto.
quando eu falho eu risco.
só ponho imaginação e publico.
se demoro eu viro a página.
eu viro livro, inanimado.
se sobrevenho eu sublinho.
se cito Dante, se cito Castro Alves.
se escrevo eu assino.
se mato eu escondo, mas se vivo
a moita se mexe, se move, vira sarça e arde.
se palavras postas uma após outras são assim.
se abro um (parêntese é porque pensei em outra coisa).
se fecho é porque esqueci.
se escrevo números é porque são sempre sete, doze, três.
se chego a chamar de versos o que são feridas.
a superfície onde escrevo não é maleável.
o terreno é de pedras – duro, sobrevivo.
não há poesia neste canto.
existo, logo penso acabar.
onde penso acabar.
onde colocar um ponto.
o mais ou uma cruz:
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Diego Domingos, 1º de dezembro de 2010 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Minha vida de escritor

Bom: pra começar eu não tenho vida de escritor. Vivo numa casa abandonada por mim, e antes por mulher e filhos. Quanto a minha vida de poeta nunca passou de anônima. Escrevo muito e nem eu mesmo me leio. E ultimamente dei pra achar bom demais tudo que escrevo - um risco. Já me considerei um bom leitor, hoje me considero preguiçoso. Culpa do século que, antes do livro impresso, me dá as opções de passar os olhos pela Internet, ver um filme, ouvir uma música no mp3, ver uma partida de futebol na tevê, uma mesa-redonda, ou uma série cheia de recursos especiais, ou um bom documentário, uma boa entrevista, ou ainda ler um e-book ou atualizar uma rede social qualquer, ou ainda a melhor de todas - ouvir rádio. Então abandono o pobre Quixote no meio de uma aventura, largo no fundo do Inferno um inconsolável Dante, aceno para Shakespeare com o lenço de Desdêmona, irrito-me com um Machado Casmurro no metrô e deixo-o falando sozinho. Não é para tanto? E se hollywoodianamente Riobaldo se casasse com Diadorim no final do Grande Sertão? Bom, como Riobaldo, também tenho meus pensamentos, caros a mim, que aos outros não dizem bulhufas. Minha vida (pensada) de escritor. Penso no Machado poeta e me comparo a ele. Gostaria que as minhas Americanas também fossem um salto para algo maior. Escrever prosa. O Rosa também optou por uma prosa poética ou uma poesia em prosa. Mas quem sou eu? Um poeta anônimo, um pai sem causa, um filho perdido e amante quanto-mais. E ainda por cima um poeta obcecado por outros poetas, pelo Último Poema, pelo Lutador, pelo Romanceiro, pelo Barco Bêbedo. Sou o autor  anônimo mais famoso. Embora tarde sofra. Obcecado por idéias, por versos, pela vida romanesca dos poetas e pela idílica vida dos escritores. Já me imaginei um Fernando Sabino morando numa Ipanema de um Rio de Janeiro. Já me imaginei andando pelas ruas deste outro Rio de Janeiro do século machadiano. Eu não me pertenço. Não pertenço a este tempo. Talvez daqui algum tempo, digamos cem anos a frente, eu comece a pertencer à cidade, às ruas, aos bares, aos transeuntes, a um esquecimento de mim mesmo que hoje apenas ensaio. E nos olhos do meu filho talvez eu viva. Nas páginas do meu livro. Em cima das letras garrafais do meu nome. Finalmente autor. Autor destes pensamentos que tive, e que alguém tem, autor destas linhas que escrevo e leio, ao mesmo tempo que penso. Autor de mim mesmo.

domingo, 14 de novembro de 2010

SÓLIDA SOLIDÃO, SÓ LIDA


O meu filho não está dormindo.
Não está no quarto contíguo.
Jamais usará esta palavra
E nenhuma babá-eletrônica o olhou.

O meu pai não está comigo.
Jamais o pus na cama
Jamais ele me viu assim.
Deve ser um espectro.

Minha mulher não está dormindo.
Não conversa comigo.
Não está ligada na tevê.
Talvez andasse morta.

Eu mesmo não sei dizer.
Eu vejo pelos olhos de um velho.
Meu passado é mais presente
Que o meu futuro.

DIEGO DOMINGOS

A poesia me vem nas horas mais erradas (apud LFV)

Pesquisando para um trabalho da Faculdade sobre O Cântico dos Cânticos, a poesia me assalta, literariamente. Cedo, não sem algum protesto. Você já não se sentiu assim? Você tem um compromisso qualquer, um trabalho, uma prova, cinema, futebol, banco, qualquer coisa, e na hora de sair algo te chama para outra coisa - no meu caso, a poesia me prende à tela (onde o papel?), e ela é assim, não tem hora pra chegar nem pra ir embora, como uma visita de que gostamos e não conseguimos falar-lhe que temos que sair, temos prova hoje, ou o banco vai fechar, preciso ir, você se importa... E a poesia se importa. Ela diz "não sei quando posso voltar; não sai, não; vamos ficar; ou vamos sair; a vida é curta; aproveitemo-la; qual compromisso! compromisso temos nós dois, seu manganão!" E deste "diálogo" entre meu eu+ comigo foi que nasceu este poema aqui, que intitulei (e foi outro dia mesmo que aprendi que não é "entitular"):




Um cântico, de muitos

O amor é isso.
O amor é isso?
O amor? É isso!
Ô, amor... É isso!
O amor é isso, sim!
Isso, sim, é amor!
Amor assim.
Amor maior.
A maior.
O maior.
Ao maior.
À maior.
Melhor:
Mel e amor.
Seu amor.
O céu, amor!
Aroma.
Amora.
Amore.
A moura.
Amada.
Da ama.
Do amo.
Dosamos.
Amós.
Amar me perdeu.
O mar me achou.
O mar fechou.
Encolheu.
A flor abrochou.
Engoliu-meu amor.
A rua cerrou-me.
Orvalhou-me.
Desenganou-me.
Amar se paga.
Mete-se na sombra.
!Há dúvida?
A dúvida é da vida.
A vida é da dor.
A dor é do homem.
E o homem é do amor.
Sigo aquele que amo.
Embora nunca nos encontramos.
Ela para mim é que se volta.
Seus olhos são dos infernos
Num corpo paradisíaco.
Seu coração usa trancas.
Seus peitos são crianças.
Suas mãos mantêm cativas
Todas as reuniões de homens.
Seu pescoço é uma luva
Para as minhas mãos.
Sua cintura é a outra.
Seu umbigo é a taça
Do meu champanhe.
Toda ela é para se desejar.
Todo ele é para se desejar.
Ela sobe o monte.
Ele desce o vale.
Só Deus é testemunha
Deste verdadeiro amor.



DIEGO DOMINGOS

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Moita das Lamentações


Se eu soubesse me lamentar me lamentaria de não ter começado a escrever aquele poema inspirado no amor de Riobaldo e Diadorim no meu já sabido precário celular cujo já salvou algumas boas idéias mas de que me lembro só das perdas. O que eu poderia fazer? voltar ao papel-e-caneta? sair do local da inspiração e sentar à frente do computador como agora? Só me lamentar? Pensar que algum deus o ouviu? Que algum anjo lia sobre os meus ombros? É uma perda. Irrecuperável. Não saberei jamais se estaria bom ou não. Escreverei outras peças, não tão boas, melhores ou piores - apenas diferentes daquela perdida. Se usei ali as palavras coche e cale - que importa agora? Quem sabe se não foi o próprio diabo quem mo tomou das mãos? No entanto, teria amado este poema - um minuto que fosse, uma década, por breves cem anos. Não posso tentar reescrevê-lo. Sairia outro. Não consigo relembrá-lo todo. Só queria ouvi-lo em sonhos, uma única vez novamente. Mas por que foi que eu o escrevi? E como fui perdê-lo?

Diego Domingos

sábado, 24 de julho de 2010

Apresentando Amilcar de Castro, poeta


Um poema das minhas leituras de antanho; dois poemas de Amilcar de Castro, escultor e poeta, retirados do Suplemento Literário de dezembro de 2002 (que li agora, sempre atualizado com o que tem valor; leio após uns anos, mas não deixo de ler):

A Consciência do fazer

Eu sou porque ela é.
Ela é porque eu sou.
Somos de graça.
A superfície está em branco.
Eu também.
Se com um gesto a toco,
eu sou tocado.

A grama desenha o verde

A grama desenha o verde
A árvore desenha o céu
O vento desenha a nuvem
A nuvem desenha o azul
A água desenha o rio
E o homem desenha o tempo
na exatidão do sonho.

Amilcar de Castro

sábado, 3 de julho de 2010

Um quê de síndrome do pânico ou agorafobia



Sem ânimo pra sair de casa. Correndo de compromisso. Com medo de encontrar pessoas. Querendo que o mundo entre em guerra ou sofra uma hecatombe pra que minha casa se transforme num bunker. Ficar pensando que o débito automático foi inventado baseado em mim. Fazendo auto-análise, sendo autodidata, me auto-medicando, lendo livros de auto-ajuda, jogando paciência com dominó, usando todos os teles - pedindo de carne, remédio até sexo pelo telefone, esquecido completamente da relação patrão-empregado, sem conseguir usar mais um relógio no braço, sem mulher, filhos, pai ou mãe, sem animais de estimação ou amigos, sem salário, sem poder de consumidor mas com contas a acertar com a vida, comparar uma improvável ida ao museu ou ao teatro com ir ao médico, ao dentista, ao oftalmologista, com visitar os pais ou responder um e-mail, ou atender o telefone, retornar uma ligação, conversar com os vizinhos, lembrar de aniversários, sem coragem de receber visita ou visitar alguém, torcendo pra que na caixa de entrada do e-mail só tenha spam, se esconder do carteiro, sentir uma alfinetada no coração se o telefone toca, ficar torcendo pro INSS me matar, vontade de viver da mão pra boca, comendo o que plantar, vestindo o que produzir, falando sozinho e me respondendo, evitando espelhos, reescrevendo um testamento mixuruca que a cada dia fica com um item a menos (Deixo minha coleção do Pasquim pro meu filho, o que conheço, deixo minha mulher pro vizinho, com o qual já troquei duas palavras um domingo, deixo minha tristeza pra ser cremada e espalhada por este velho mundo sem porteira, deixo meu livro para os tristes como eu e os direitos autorais para os bem-sucedidos como os outros, deixo minha história para ser inventada), ouvindo somente músicas instrumentais e preferindo os solos, fazendo cursos à distância, fazendo denúncias anônimas, ocultando a minha ID, me masturbando, comprando pela Internet, conversando no MSN, com a webcam, visitando a página dos amigos no Orkut, pensando pelo Twitter e seguindo os famosos, fazendo auto-retratos com o celular, escrevendo poemas com as palavras eu e meu, vendo minha vida passar sem coragem de dar sinal, de sentar no banco do motorista, de me atirar na frente, de olhar, pensando que Sair com os amigos parece o nome de um livro ou de um filme antigo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

SOBRE A LINHA



Morri na hora.
Não sofri.
Não tive tempo de sentir medo.
Só um meio susto e acabou.
Não vi minha vida passar diante dos meus olhos.
Não pressenti minha morte.
Não tive tempo de rezar e pedir a intervenção divina.
Depois da luz se apagar e do som ser cortado, bruscamente,
sem restar sequer o silêncio.
Um sono sem sonhos que não acaba.
A morte veio veloz como se um trem nos atropelasse
sem ao menos saber que estávamos na linha.

Diego Domingos

Foto: Fabio Ghrun http://tinyurl.com/2djhjrb


terça-feira, 1 de junho de 2010

Twitter: O Novo Pensamento



Ando preocupado... (Você já reparou que ninguém se preocupa demais deitado ou sentado, e parado?) ...com o prestígio do Twitter. Andam dizendo por aí (Fofoca também não é algo fácil de espalhar, dá trabalho, é quase uma profissão) que só existe futilidade no Twitter, a começar pelos políticos... Como assim?! Político só faz m#@%* mesmo, não importa que ferramenta use. Portanto, vim aqui para defender este novíssimo divulgador do Alto Pensamento Brasileiro, APB (Tudo de importante na nossa vida precisa de uma sigla, já reparou? Sua altura é medida em cm, seu peso em kg, sua inteligência pelo QI, se você é alguém nesta vida é graças ao seu RG, ao seu CPF e ao seu número do PIS. Ah, claro, na falta de todos estes documentos, serve o número do seu cartão de crédito, como não!).

Você sabia que até Deus tem Twitter? Pois é! @OCriador é um dos maiores fenômenos do Twitter - e também da Internet, já que o seu http://sacdivino.org/, que nada mais é que o Serviço de Atendimento ao Consumidor do próprio Criador, também tem milhares de seguidores, digo, admiradores, digo, todos os interessados em se salvar, vai! Ali você pode tirar sua dúvidas com o Divino, fazer reclamações, dar sugestões. É um canal direto com o céu, via teclado. Mas tem também aquele que espalha "mau humor" pra todo lado, como o @bomdiaporque, ou o @fumantepassivo, além dos gênios incontestáveis como @millorfernandes e até poetas, @profissaopoeta, que usam esta bela ferramenta para exercitar sua loucura mansa, como Diego Domingos. Bom, chega de falar dos caras e vamos ao seu "pensamento vivo":

De @OCriador:


A crise religiosa está tão grande que em breve será mais difícil encontrar um pró-cristo do que um anti-cristo.
Micaretas, povoando o inferno desde 1990.
Após o milagre, Jesus se aborreceu bastante quando reclamaram que o vinho estava aguado.
Filhos, quando morrerem, passem aqui no setor de criação para fazermos um recall dos sisos, das amígdalas e do apêndice.
Não adianta perguntar “o que Jesus faria?” diante de problemas. Já que ele podia fazer milagres para resolvê-los. E você não.
A frase “encontrei Jesus” foi dita pela primeira vez por uma criança em Nazaré, durante uma brincadeira de pique-esconde.
Há basicamente dois tipos de seres humanos: os que Me amam e os que vão queimar no fogo do inferno por toda a eternidade.
Vende-se bola azul, 6 bi de anos de uso, milhões de espécies incluídas. Grátis um apocalipse. Garantia estendida até 2012.
Minha justiça divina não permitiria que apenas as mulheres sofressem os martírios da menstruação, por isso criei a TPM.

De @bomdiaporque:

"Eu tenho o direito de ser feliz." De onde você tirou isso? No máximo, você tem o direito a 30 dias de férias.
Não fico irritado facilmente. O problema é que o mundo insiste, insiste, insiste e uma hora consegue.
Afinal, por que uma moda só fica ridícula depois que passa?
"Ana Maria Braga publica livro". E você achando que o maior inimigo dos livros eram os leitores eletrônicos.
Não tem como piorar? Que nada. Você é que anda sem imaginação.
O maior problema de ser casado é que o despertador do outro também acorda você.
Se a matemática é uma ciência exata, como a resposta para uma equação pode ser “de menos infinito a mais infinito”?
Se você tb cumprimenta os outros pergutando se está tudo bem, então deveria estar pronto para ouvir a verdade.
“O tempo cura qualquer coisa”. Qualquer coisa, menos a velhice.
“Podia ser pior”. Na verdade, vai ser.
Toda diplomacia, no fundo, é uma ameaça: ou vc aceita o q eu tô sugerindo educadamente ou eu vou te encher de porrada depois.
Tô ansioso pelo último episódio de Lost. Não que eu queira ver - eu quero mesmo é que acabe essa porcaria.
"É tão difícil acordar neste friozinho." Não, não. Difícil é aturar o cretino falando isso todo santo dia.
E essa Copa que não acaba?

De @fumantepassivo:

Respeite os fumantes. Quem é capaz de cometer suicídio lentamente é capaz de cometer qualquer outra loucura.
A segunda-feira não é para os fracos. Saudações a todos os sobreviventes.
O mundo realmente dá voltas. Roda, roda e sempre traz mais uma maldita segunda-feira.
Segunda-feira até quem não bebe acorda de ressaca.
O único problema do final de semana começar é saber que inevitavelmente ele vai terminar numa segunda-feira.
As 3 primeiras letras da sexta-feira já são suficientemente sugestivas pra quem reclama não ter o que fazer nesse dia.
Segunda até sexta: 5 dias. Sexta até segunda: 2 dias. Pra inverter a situação q o mundo se encontra, só invertendo isso.
Prometa uma coisa pra você mesmo: nunca prometa nada pra alguém.
Na Indonésia tem um menino de 2 anos que fuma 40 cigarros por dia. Imagina se fosse na Jamaica.
Enquete: quanto tempo mais você acha que Geisy Arruda vai resistir até necessitar protagonizar um filme pornô?
Liberdade é a maior ambição de quem vive na prisão. Não à toa quem trabalha sempre comemora muito o fim do expediente.
“NX Zero”, “Fiuk”, Luan Santana. Ano vai, ano vem e o maior problema dos jovens continua sendo o envolvimento com drogas.
O Twitter terá corretor ortográfico. Em outras palavras: Lula, Carla Perez e Sasha vão poder se cadastrar.
Um grande passo pra humanidade acabar com a injustiça nesse mundo seria acabar com a segunda-feira.
O fim do domingo não preocupa. O que aterroriza é a proximidade de mais uma segunda-feira.
Certos crimes chegam a ser ridículos perto do que uma semana de trabalho é capaz de fazer com a gente.
É claro que o Novo Uno ficou melhor. Pior, não podia ficar.

De @profissaopoeta:

Ninguém é tão bom que não mereça um biógrafo.
Verdade absoluta? O que há de verdade no absolutismo?
Os únicos que passam da infância direto para a idade adulta são os adolescentes.
-E agora, José? -Tchuim tchuim tchum claim.
Sexo, pra mim, não é o mais importante. O mais importante é consegui-lo.
No Brasil o futebol só pára pra Copa do Mundo.
Faça um favor para a Humanidade: se atire na cratera de um vulcão em erupção. Quer dizer: faça este favor a si mesmo. Ninguém tá nem aí. (Ao estilo de @bomdiaporque)
Se eu fosse você, não seria eu.
Em pleno século XXI, existir realezas com reis, rainhas, príncipes e princesas é algo irreal, quase surreal.
A beleza está nos olhos de quem me vê.
No fundo, no fundo, as pessoas são muito superficiais.
Eu não acredito em artistas que conseguem fazer a sua arte, e explicá-la.
Foi o que eu disse. Ou pensei. Não sei.
"Pensando bem" eu gosto de escrever. "Se bem que" também. "Na ponta do cérebro" em vez de "Na ponta da língua". "Em algum lugar" acho bonito
Não vai dar tempo de morrer com dignidade. O melhor a fazer é morrer rápido evitando assim aquele constrangimento entre quem vai e quem fica
Em certas ocasiões eu prefiro um bom livro ou um bom filme a sexo. Depois de uma noite de sexo selvagem, por exemplo.
Em breve postarei o meu suicídio. Não o meu suicídio autoral, nem físico nem moral. Um outro suicídio em que não faria mal nem a mim mesmo.
Por que ficar dizendo coisas sem sentido se posso tentar descobrir o porquê de ficar dizendo coisas sem sentido?

Taí uma amostra do pensamento nacional via Twitter. Depois disto não me venham dizer que o Twitter só tem besteira. É um bestiário, e você precisa saber a diferença.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

HISTÓRIAS DE AMOR COMIGO


As minhas primeiras namoradas foram três ao mesmo tempo, quando eu tinha seis anos. E elas eram mais ou menos da minha idade, com diferença talvez de uns dois anos, para a mais velha. E o que nos ligava era ao mesmo tempo o que devia nos separar, a tensão de eu ser um para três e não eleger uma predileta. E este ciúme entre elas de mim criava também uma expectativa para ver, no final, com qual das três eu ficaria. Decisão esta que eu não queria tomar, e que não tomei até hoje. Eu gostava das três ao seu tempo. Minto. Gostava mais da Sueli, por que, eu não sei. Ela era a mais bonita? Era muito branca e muito magra. Mas tinha algo mais. Tinha uma alma feminina, no corpo de uma criança, que precisava já, naquele tempo, ser amada como uma mulher por um homem. A segunda na minha preferência era a Léia. Esta já me apontava para a vida prática - casamento, filhos, trabalho. Seria a mulher com quem eu conversaria ao jantar todas as noites sobre como a vida flui naturalmente. E riríamos de nós, e riríamos dos outros e seríamos felizes naturalmente. E a terceira nesta ordem seria a Preta. Com a Preta acho que não teria pouso neste mundo, não teria endereço fixo, seríamos andarilhos, aventureiros, carregaríamos nosso único filho como as mães-cangurus carregam os seus. Seríamos hippies, talvez, usaríamos cabelos longos e tatuagens e o som de nossas vidas seria o rock. Não, a Preta era uma negra bonita e talvez eu a tivesse matado por ciúmes pouco tempo depois de me decidir por ficar com ela. A paisagem destes amores era rural, e brincávamos de casinha, marido-e-mulher, e a parede de nossa casa eram bambus, e lembro vagamente que, na hora da distribuição dos papéis, sempre que uma delas se autonomeava minha mulher, as outras se recusavam a fazer os papéis de filha ou qualquer outro e saíam da brincadeira e era quando papai-e-mamãe ficavam à vontade pra namorar nos mais inocentes beijos e abraços que a lembrança de um homem maduro pode trazer do seu passado azul-bebê.

E o que teria acontecido aos meus três primeiros amores ao mesmo tempo? Teriam se casado, tiveram filhos e já caminham para ser avós? Nada disto. Elas estão bem aqui, na minha frente, na sua frente, e não envelheceram um único ano, têm ambas as três ainda seis, sete e oito anos e me amam do fundo do coração sem se decidir em deixar o caminho livre pras outras nem eu a me decidir por ficar, de vez, com uma das três. Por amá-las demais cada uma de um jeito e sentindo-me amado triplamente.

Diego Domingos não é pedófilo nem foi vítima de abuso na infância

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O ÚLTIMO DA FILA



Amar o que já foi amado, uma mulher, um quadro
Visitar um moribundo escoltado
Voltar para uma altitude segura
Enganar todo um leprosário
Ir caminhando com um pé na calçada e outro na rua, sobre o meio-fio
Administrar um furúnculo
Pesquisar no armário um termo em desuso
Denunciar os sonhos de outrem
Fazer hora para marcar o gol ou gozar
Tomar leite no gargalo da garrafa
Comprar carrinhos de madeira de Jesus, recusar os pássaros de barro
- o último que me vendeu, voou
Morrer no auge do sucesso ou simplesmente pendurar as chuteiras
parar de escrever, ir para o Lar dos Artistas
passar o cargo, sumir na curva da estrada do universo
envolto em poeira cósmica
conhecer os Arcos do Inferno
reencontrar os meus velhos
acompanhar o meu filho da arquibancada superior
escapar ardilosamente do fisco
finalmente abraçar todas as causas
entrar para a Escola de Anjos
jogar no time dos santos
ver o rosto sem contornos de Deus
ver a luz no fim de um túnel e caminhar tranqüilo para lá
nascer de novo em outro mundo
Parar para viver em paz ou continuar lutando
Sobreviver escrevendo obituários num país sem esta tradição
Não considerar o último da fila
Até amanhã fazer um filme ou reescrever todos os livros sagrados
Olvidar o ouvido - onde eu ouvi isso?
Atravessar paredes através de portas
Atravessar poetas com murros
Esmigalhar poemas na sopa
Fazer gols de letra, dar chapeuzinhos
chutar a bola no travessão, ultrapassar a linha, fazer uma leitura do jogo
Banir os dois pontos de todas as línguas
Sobrevoar o coma, sem pouso - onde eu escrevi isso?
Ligar para minha mãe em Massachusetts
Escrever ao Nietzsche pedindo conselhos acerca da minha poesia
Telefonar ao Mário de Andrade que saudade de ouvir a sua voz, mestre
Fazer uma foto pra revista com Cecília Meireles de Santa Maria comigo nos braços de corpo morto de Jesus
Publicar este poema na Internet
Mandar as provas pro meu editor
Reunião de autores na terça
Pedir conselhos a minha esposa acerca do que seria a verdade, ontologicamente
Passar na venda do Nem pra ver sua filha finada no balcão a sorrir pra mim quando tinha sete anos
Pegar o bonde pro aeroporto
Traçar uma linha sob os meus passos nem reta nem contínua
Passar pela cena do crime antes do acontecido
O papa não beija mais o solo das terras que visita
Agora ele beija o rosto das passistas
Saddam Hussein enforcou-se num buraco antes de ser traído e capturado
Eu almejo o sol mas me contento com o brilho dos teus olhos
Amanhã eu fui e vou ganhar ontem
Em nove meses eu me organizo e me lanço
Nesta secretaria onde está a cultura?
Por que você não se despe, deita na cadeira e abre a boca?
Só há um lugar pra se ir; pra dentro - esta eu lembro onde ouvi, em Kids
Se não acontecer alguma coisa no próximo segundo eu morro de ansiedade
Eu venho de uma família numerosa de dois irmãos e um pai
Naquele tempo as bombas não explodiam
e em seus cartões postais apareciam os campos minados
Se eu tivesse escolha eu escreveria música
Na primavera, na primeira vez
Conhecendo aos poucos a nudez de uma odalisca
Sem mais palavras por quilômetros pego-te aí sentado
atropelado com estas rodas de ouro nesta lataria enferrujada
levanta-te, anda, vai ser guache na vida!
isto sai com água
não guarde mágoa porque isto não compra nada
não se distraia mais com meu livro nas mãos
todo mundo tem a sua hora - no seu relógio, que horas são?
estes papéis espalhados no asfalto, é sangue?

Diego Domingos acha que poeta bom é poeta morto

UMA COISA EXTRAORDINÁRIA E TERRÍVEL



Para Sandra Cavalcante

O ato de escrever tem em si um pouco da idéia ou sentimento de como a vida começou, o início, a origem. Tanto a versão bíblica quanto a da ciência determinam um ponto de partida – no início era a escuridão ou era o caos. Escrever então não começa na primeira letra aí em cima, no início do parágrafo, arrastando a primeira palavra e com ela as outras. Também no ato de escrever há um momento antes da luz ou de uma explosão. E é este estado anterior ao gesto que faz toda a diferença.

Se eu estava pensando, após ficar dois dias reclusos em casa, e ao sair, como é bom reconhecer a minha cidade, meus conhecidos, como é bom reconhecer o casario e ser reconhecido por ele, - se eu pensava assim antes de sentar para escrever e se eu pensei agora que sentar para escrever é um lugar-comum, para logo responder a mim mesmo que ninguém escreve em pé, mas por que não? Talvez sim. Talvez eu escreva para assentar as idéias, mas aí seria um jogo de idéias ou de palavras. E seria verdade também que neste momento eu já estaria escrevendo sem ao menos me dar conta disso – como quando a gente nasce, alguém se dá conta? Poxa, uma imagem mais bonita ainda: e se a gente se desse conta no exato momento em que fôssemos fecundados? Quando ainda não tivéssemos dois braços ou duas pernas mas tão-somente duas células? Este seria realmente o nosso marco inicial? E se, como idéias, teoria ou sonho, já existíssemos na cabeça e no coração de nossa mãe? Você está entendendo aonde eu quero chegar? Onde começamos. No ato de escrever. Que também, como nós, tem um começo indeterminado mas que precisa ser continuado.

Machado de Assis um dia escreveu que o pior que pode nos acontecer é nascer. Millôr Fernandes também já escreveu este dístico filosófico: Quem começa, já fez. Fernando Sabino também já disse que escrever é fácil: é só olhar fixamente para a página em branco até suar sangue. Então, meu amigo, se for escrever, não pegue o assunto do momento, não escolha várias pautas, não fale sobre o que você domina nem sobre o que domina você (sobretudo não faça jogo de palavras nem ponha as palavras em jogo, ou em jugo, nem tampouco salpique seu texto com parêntesis explicativos num dos quais você pode correr o risco de, se estendendo, ficar pensando que escreve a palavra tampouco lendo-a como tãopouco) e jamais, ao fechar um parêntese, deixe aquela idéia anterior a ele órfã.

Órfã é só uma palavra mas repare que nela o erre, o efe e o a estão de mãos dadas e é o ó, menino de topete, o órfão que quer entrar para esta família, em que a mãe r seria Rosa, o pai f, Fernando, e a menina ã Aninha. Repare então na palavra órfão. O menino, Otavinho, já foi aceito na família que o adotou, e agora é o seu irmãozinho, também órfão, que quer entrar pra família. Será que este outro menino também fará parte desta boa família?

E é aqui que eu deixo você: o que é, exatamente, quem escreve? Se ele é o autor, o criador, é ele quem dá vida a personagens, a idéias que parecem ter nascido da sua cabeça, isto sim, pois você concorda com tudo, ou antes, ele fez você pensar junto com ele, ou pior, tirou os pensamentos, a fórceps, do seu espírito. Mas e se ele não for nada disso? E se ele titubear como você, e se ele consultar dicionários e o Google, se ele não usar uma palavra correta só porque a acha feia? E se ele sentir fome enquanto escreve, ou sede, medo ou solidão? E se ele de repente se pergunta para quem está escrevendo? E se ele souber exatamente pra quem, pra você? Que coisa extraordinária, ou terrível.

Diego Domigos é piedadense ausente em Itabirito


terça-feira, 6 de abril de 2010


Portanto, eu não tenho a mínima idéia sobre o que eu estava falando ou o que estava pensando quando comecei neste parágrafo. Verdade é que também não lembro se algo me foi perguntado, ou se alguma coisa ou alguém tenha me chateado a ponto de eu vir aos jornais me indignar. Realmente não lembro de nada disso. Então o que me pôs a pena na mão? Talvez seja o hábito. Não dizem que o hábito faz o monge? Que o cachimbo entorta a boca? Mas de que diabos nós estamos falando!? Eu, de minha parte, não tenho um assunto nem sou o assunto. Portanto, dou por encerrada esta conversa e dois pontos finais:

Diego Domingos é o maior poeta de Itabirito


sábado, 27 de março de 2010

Por que "Profissão: Poeta"?


Você, alguma vez na vida, ouviu falar de uma Escola Técnica Para Poetas ou de um curso universitário como Engenharia de Versos? Acho que só em sonho, né. Pois bem. Mas que os tais existem, existem, e cá estou eu para prová-lo. Bom, prová-lo não. Como poetas não se formam, nascem prontos, devo dizer que não nasci poeta mas me descobri como tal. E ser poeta não é só escrever poemas, é mais que isto. Ser poeta é ter uma visão diferente das coisas, é ter a atitude de parar para ver. Ficar admirando uma folha caindo da árvore, uma formiga trabalhando, uma garota de jeans, uma palavra, uma idéia, um sonho, uma sombra, nada e tudo. Ser poeta é andar sozinho e observar de fora, mas é também seguir a turba e tirar as impressões. E, convenhamos, isto não chega a ser uma profissão. Mas trabalhar com palavras, sim, lidar com os sentidos do leitor na busca do sentido no poema. Escrever, reescrever, cortar, compor, alinhavar - isto é um trabalho como outro qualquer, que exige parte intelectual e manual também. Todavia, este é um reconhecimento que não recai sobre todos os poetas. Devo repetir aqui aquela velha máxima de que poesia não dá dinheiro, de que ninguém vive de poesia? Na verdade, ninguém vive sem poesia, isto sim. Ninguém vive sem o sonho, sem o descanso da realidade, e isto é a poesia que proporciona, esteja ela em livro, filme, música, teatro, no amor ou em outro meio. Portanto a poesia é necessária, além de ser um direito do ser humano. Então sonhemos com o dia em que possamos responder à pergunta "Qual a sua profissão?", envoltos num sorriso de vitória, uma direta e simples resposta : "Poeta".

Esboço de um poema no celular

No meio de um ponto de vista.
No meio de umas pernas femininas roliças.
No meio de uma entrevista.
No meio de uma pista.
No meio de uma conquista.
No meio de uma lista.

Diego Domingos, poeta de sacanagem e amante por profissão